Este sábado à tarde nossa família, juntamente com um grupo de pessoas da igreja, foi visitar o asilo da cidade. Todas as vezes que fazemos este tipo de atividade sinto uma mistura de antecipação e medo em meu coração, talvez por não saber como as pessoas vão me receber, e também por não saber exatamente como me aproximar deles. Não sei se você já passou por essa experiência, mas quando agente chega a um lugar como um asilo a primeira impressão é sempre um tanto desoladora. Você vê pessoas sentadas aqui e ali com olhos tristes olhando para o infinito. Algumas parecem mal humoradas e sem vontade de serem perturbadas, mas a verdade é bem diferente. Por estarem sozinhos por tanto tempo sem receber atenção de alguém que realmente se importa com eles, acabam transmitindo a mensagem de que não querem ser perturbados, mas quando percebem que você foi lá só para dar um sorriso, um abraço, e ouvir o que eles têm a lhe dizer, rapidamente se transformam nas pessoas mais felizes do mundo, conversam sem parar e expressam quase que um medo do momento em você vai deixá-los sozinho novamente.

O asilo da nossa cidade é muito bem mantido. Os quartos são entremeados por jardins e plantas, as enfermeiras estão constantemente passando vendo um e outro paciente, dando os medicamentos, e ajudando no que for necessário. Existe uma sala de atividades com uma TV, um refeitório, uma enfermaria, os quartos são bem ventilados e limpos, e até mesmo os residentes demonstram em sua aparência que são muito bem cuidados. Em um lugar tão arrumadinho assim, agente poderia pensar que eles têm sorte de estar ali, enquanto tantos outros idosos vivem em condições precárias por aí. Mas apesar de todo cuidado físico que podem receber existe algo essencial que ainda falta, o que é a causa daqueles olhares tristes. Como os próprios enfermeiros nos disseram: podemos dar tudo que precisam, mas eles não recebem o que mais necessitam – amor de seus familiares.
Enquanto falávamos com as pessoas, ríamos das brincadeiras que faziam, principalmente com nossas filhas que estavam conosco. Outros tentavam nos contar algo, mas pela falta de dentes na boca quase não conseguíamos entender e nos esforçávamos o máximo para não demonstrar que não estava entendendo. Sorríamos e tentávamos ajudá-los a se levantar, a alcançar o que estavam tentando pegar. Outros nos contavam com olhos lacrimejantes como foram parar ali e as dores e sofrimentos que passavam. E no meio daquela atividade toda, começamos a ver em seus olhos, algo que quase todos eles ainda possuíam – esperança. Esperança de serem amados, de serem compreendidos e de serem felizes. Mas infelizmente nem todos ainda tinham essa pequena luz nos olhos.
Da primeira vez que visitamos o asilo no ano passado, fomos lá especificamente para conhecer a “Bina”. Uma senhora cujo nome verdadeiro eu não sei, mas que é carinhosamente chamada de Bina. Através de uma vizinha dela, ficamos sabendo que tinha sido levada para o asilo após fazer uma cirurgia na perna, por não ter quem cuidasse dela. Quando vimos a Bina ano passado, ela era uma senhora muito alegre, que apesar de não estar podendo andar devido à cirurgia, estava sempre tentando levantar da cama, estava fazendo mil planos para quando recuperasse a força e pudesse voltar a andar. Contou-nos muitas histórias, nos falou sobre a família, principalmente sobre a filha que mora em outra cidade, à quatro horas daqui, e pediu que orássemos por sua saúde. Apesar de algumas dificuldades devido à sua surdez. Desfrutamos de bons momentos com ela, principalmente por sua personalidade feliz e brincalhona.
Dessa segunda vez, logo que chegamos, perguntei à enfermeira se a Bina estava bem. Ela me mostrou a Bina, de vestido verde, sentada em um sofá na varanda. Se ela não tivesse me mostrado creio que não a teria reconhecido. Ela estava de cabeça baixa olhando para o infinito. Peguei em sua mão e a cumprimentei. Ela me olhou assustada, mas não disse nada. Percebi que não estava me ouvindo bem. Perguntei à enfermeira se ela estava conversando, e ela disse que sim e começou a lhe dizer que sua filha tinha acabado de ligar e mandara um abraço. Quando mencionou o nome da filha. A Bina, como que despertou de um sono, abriu bem os olhos, sorriu e disse: Minha filha ligou? Como ela está? Quando ela vem me visitar? A enfermeira lhe disse: “Logo, logo ela vem.” Ela disse: “Mas quando?” “Logo, logo,” foi a resposta.  A Bina então fechou o sorriso, abaixou a cabeça e voltou ao seu estado de “olhar para o infinito”, ignorando completamente a nossa presença.
Fiquei triste, mas entendi o que estava acontecendo. Quando conheci a Bina, pela primeira vez, ela estava cheia de “esperança” de que logo andaria, de que logo receberia a visita da filha, e de que sua vida melhoraria. Mas nada disso aconteceu. Sua perna não melhorou, sua filha quase não lhe visita e sua vida está cada vez mais triste e desolada, a Bina perdeu a esperança. Aquela esperança que a mantinha sempre animada apesar da vida dura que estava levando, aquela esperança de que Deus estava cuidando dela e de que existia pelo menos uma pessoa no mundo que se importa com ela a ponto de lhe visitar de vez em quando.
No caminho de volta para casa, meu esposo e eu começamos a refletir em nossa própria experiência como filhos e na responsabilidade que temos para com os nossos pais, que dentro de alguns anos também precisarão da nossa ajuda para manter a sua esperança viva. Lembramo-nos então de 1 Tim. 5:8: “Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior que o descrente” e oramos em nosso coração que Deus nos dê sabedoria para lidarmos com essa situação quando precisarmos. 
Gostamos muito de cantar aqui em casa a música “Fonte de esperança”. De hoje em diante essa música vai passar a ter um significado especial para mim. Depois da experiência de sábado, creio que todos nós reconhecemos que não temos permitido que Deus nos use tanto como uma fonte de esperança aos outros e nosso grupo resolveu voltar ao asilo pelo menos uma vez por mês e desenvolver algum projeto social com aquelas pessoas especiais. A esperança é Jesus, e para muitos, no triste mundo em que vivemos, o simples fato de receber um sorriso e conversar por uns 5 minutos lhe ajudará a encontrá-Lo.
Que Deus nos ajude a sermos uma fonte de esperança para alguém todos os dias. Quando você se encontrar com uma pessoa idosa de cara fechada, sorria para ela, mesmo que não lhe retribua o sorriso, pois talvez você  estará apenas iniciando o processo de lhe devolver a esperança!

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